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GS: Ao Alto
Joana da Conceição
Joana da Conceição
30,5 x 47 cm
16 páginas multiplamente desdobráveis
3 exemplares
2012
Lisboa
não tem
livro de desenhos e colagens originais, com páginas recortadas.
Gramática Secreta: Ao Alto

«Zas, e Chronos, e Ctónia sempre existiram; e Ctónia veio a chamar-se Ge, depois que Zas lhe deu a terra como presente»

Na teogonia proposta por Ferecides de Siro três princípios figuram ab eterno: Zas, Ctónia e Chrónos. Zas (Zeus). Ferécides conta que nas núpcias do casamento de Zas com Ctónia, Zas oferece a Ctónia um manto para ela se cobrir, e assim Ctónia passa a corresponder à terra tal qual a conhecemos, Ge, ou Gaia. Há portanto uma transformação que ocorre de um tempo eterno onde Zas e Ctónia figuravam como os dois únicos espaços, para, através da união destas duas figuras, inaugurar um novo espaço e consequentemente um tempo diferente. O manto, onde Zeus coseu Ge e Ogenos, e que é onde vivem os humanos, separa Ctónia de Zeus, alterando assim a cartografia inicial de dois para três espaços distintos: o céu, o manto, que corresponde à superfície da terra, e as profundezas, Ctónia, escondida sob o manto.
A separação de dois dos elementos primordiais, e simultaneamente a criação de um novo espaço gerado por essa mesma separação é uma evolução narrativa comum a várias teogonias. Acima de tudo, esta separação funciona como um marcador narrativo que visa distinguir entre um tempo anterior, sagrado e idílico, eterno, e um tempo profano inaugurado pela nossa existência.
Ao longo da história os vários sistemas religiosos tentaram restaurar a ligação primordial entre o céu e a terra, construindo, ou simplesmente designando, lugares sagrados que permitiam restabelecer a comunicação entre o casal separado. Estes lugares sagrados representam uma ruptura na uniformidade do espaço profano, da paisagem, e permitem aceder, através de rituais próprios a cada religião, ao tempo sagrado. Os elementos simbólicos que preconizam esta ligação primordial são vários, tanto podem pertencer ao reino da natureza, como uma árvore ou uma montanha, ou ser construções complexas, como os zigurates, as pirâmides ou igrejas.
O céu em si mesmo, através das suas próprias características, como sejam a sua altura infinita, inacessibilidade, imutabilidade e uniformidade, revela directamente a sua transcendência. Região de carga simbólica inesgotável, o céu foi ao longo da nossa história, sistematicamente usado na sua qualidade simbólica e, consequentemente, tudo o que está “ao alto” ou for “elevado” é consagrado à transcendência. Este livro reúne vários núcleos de elementos consagrados pela sua altura, justapondo os marcadamente religiosos aos dessacralizados, de forma a evidenciar a reactualização do valor simbólico: céu.

(Texto fornecido por Joana de Conceição a Tipo.PT)
id
date time
2013-07-19 15:05:23